O mês de novembro oferece uma bela oportunidade para uma reflexão profundamente cristã: a aparente contradição entre a Comemoração dos Fiéis Defuntos e a celebração de Cristo, Rei do Universo. De fato, o mês mostra que a morte não tem a última palavra, porque Cristo venceu a morte e abriu para nós o caminho da vida eterna.
Como premissa, convém afirmar que 2 de novembro não é propriamente o “Dia dos Mortos” na linguagem litúrgica da Igreja Católica. O nome litúrgico é “Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos”. A diferença não é apenas terminológica. Ela revela uma verdade fundamental da nossa fé. A Igreja não celebra a morte, mas comemora os fiéis defuntos. Ela recorda as pessoas que fizeram parte de nossa história e que, agora, esperamos encontrar novamente em Deus. Ao rezar pelos defuntos, professamos a fé na ressurreição dos mortos e na vida eterna. É por isso que, diante do túmulo, o cristão pode sentir saudades e chorar, mas nunca desesperar, pois em Cristo, ela não é o fim, já que Jesus Cristo morreu e ressuscitou. A sepultura nos lembra a fragilidade da existência humana, mas a cruz e a ressurreição nos lembram que a morte não é o destino definitivo daqueles que pertencem a Cristo.
Quando visitamos um cemitério ou acendemos uma vela em memória de alguém querido, nossa fé nos convida a olhar além da morte. Ao rezar pelos defuntos, não estamos simplesmente olhando para trás. Estamos também olhando para a frente, pois a lembrança dos que morreram nos faz pensar na eternidade. E a eternidade nos faz olhar de maneira diferente para o presente. Nossa fé não nos convida a viver assustados diante da morte, mas convida-nos a viver com responsabilidade diante da vida. Quem acredita na ressurreição não despreza esta vida, mas procura vivê-la com mais intensidade, mais amor, mais solidariedade, mais perdão e mais esperança. O dia 2 de novembro é um dia profundamente marcado pela vida pois caminhamos para o encontro definitivo com o Senhor, razão do nosso viver. A morte gera a vida!
É justamente aqui, no início de novembro, que começamos a preparar o coração para a celebração de Cristo, Rei do Universo. Na cruz, não vemos um fracassado e sim o Filho obediente ao Pai. Não vemos simplesmente alguém que perdeu a vida e sim aquele que livremente entrega a própria vida. Não contemplamos apenas um homem condenado, mas sim o Salvador do mundo que nos abriu as portas para a eternidade. É a imagem mais paradoxal do cristianismo, já que é um rei sem exército, sem palácio, sem riquezas materiais, coroado de espinhos, pregado numa cruz.
Ao comemorarmos os fiéis defuntos, no dia 2 de novembro, estamos celebrando a vida dos que foram e tomando consciência de que precisamos valorizar a nossa vida. O cemitério nos recorda que somos peregrinos. A oração pelos defuntos nos recorda a eternidade. E Cristo Rei nos mostra para onde nossa peregrinação se dirige: ao encontro com o Pai! Ao celebrarmos Cristo Rei do Universo tomemos consciência de que toda a história caminha para Cristo, nele toda vida humana adquire seu sentido. A morte não é o fim, mas a porta que se abre para a verdadeira vida, em Deus! E um último pensamento: o mês de novembro não nos leva simplesmente a olhar para os que morreram, mas leva-nos a perguntar como estamos nos preparando para a eternidade!
