Palavra do bispo: Converta-se e creia no Evangelho
Artigo de Dom Francisco Carlos Bach para o mês de fevereiro de 2024
15.02.2024 - 09:54:18

A Quaresma é um tempo especial, um tempo único, durante o qual somos chamados a intensificar a prática da ascese, como caminho de conversão. A caminhada quaresmal é símbolo da própria vida humana. Não se faz em terreno plano, fácil de trilhar, mas equivale a uma escalada. Tem como ponto de partida o vale das nossas misérias e fraquezas, rumando para o cume, onde se encontra a verdadeira libertação, fruto da Ressurreição do Senhor. Em termos de espiritualidade, a planície significa estagnação. Portanto, é tempo de subir, de ascender, de elevar-nos.
Para este tempo, podemos assumir três grandes modelos da Sagrada Escritura. O primeiro é Moisés, cuja subida ao Monte Sinai é narrada no livro do Êxodo. Lá no alto do Monte, ele se encontra face a face com Deus. Moisés permanece 40 dias naquela atmosfera divina, para trazer de lá a preciosidade da lei, a Torá (cf. Ex 19ss). É o fundamento da Aliança: os critérios pelos quais Deus prova a fidelidade de seu povo, catalogados segundo dez regras fundamentais, e que nós chamamos de Mandamentos (cf. Dt 5). Não se trata de uma coletânea de proibições, colocadas como empecilhos à liberdade humana. Pelo contrário, os Mandamentos são, até na expressão verbal, quase todos positivos. E não fazem outra coisa, além de explicitar o que já pede a própria lei natural, inscrita por Deus na consciência do ser humano. O decálogo é um roteiro para vivermos na harmonia com Deus, com os irmãos e com o mundo criado.
O segundo modelo que a Sagrada Escritura nos apresenta é o profeta Elias. Elias é um profeta peculiar, porque não deixou mensagens escritas. Mas a sua vida, o seu modo de agir, o seu modo de falar àqueles aos quais era enviado, fazem dele talvez o maior, o mais característico dos profetas. Homem de forte personalidade, destruiu os profetas que introduziam o culto a falsos deuses. Tornou-se, por isso, odiado até pelos soberanos da época (cf. 1 Rs 18,20-19,2). Ao mesmo tempo, era também um homem fraco. Não é pelo fato de ter uma missão divina que a pessoa deixa de ser humana. Elias teve medo. Fugindo da perseguição, prometida pela rainha Jezabel, sofreu um profundo desânimo, tendo sido reanimado duas vezes pelo anjo do Senhor. Inicia, então, sua peregrinação até o encontro de Deus. É a subida ao monte Horeb, que ele realiza durante 40 dias, até chegar ao topo. Lá se encontra com Deus, e recebe a mensagem para poder, enfim, dirigir-se ao seu povo, em termos como que definitivos (cf. 1 Rs 19).
O terceiro, e mais importante modelo, é o próprio Cristo Jesus. Antes de começar a sua pregação ao mundo, a partir do pequeno grupo de apóstolos e discípulos, que iria chamar para segui-lo, Ele passa 40 dias em jejum no deserto. São bem conhecidas por todos nós as três grandes tentações pelas quais Jesus passou e que nos perseguem, a todo momento, durante a nossa vida.
A primeira é a tentação da materialidade e do prazer sensual, a busca de satisfazer todas as inclinações e impulsos, a qualquer preço. Disto conseguimos nos desvencilhar, assumindo a vontade de Deus que conhecemos através da sua Palavra infalível e é prioridade diante de qualquer tipo de satisfação pessoal. A segunda tentação é a da vaidade e do orgulho, que se consegue vencer, deixando a presunção de lado, e apelando para o poder de Deus: "Tudo posso naquele que me fortalece" (FI 4,13). Em terceiro lugar, os Evangelhos apontam a tentação do poder e do domínio. A isto se contrapõe o senhorio de Deus, que devemos reafirmar com a mesma segurança de Jesus, citando o primeiro Mandamento da Lei: "Para trás, Satanás, pois está escrito: 'Só adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele servirás"' (Mt 4,10).
Trilhamos o caminho da fé, da esperança de atingir o objetivo maior, onde se encontram as coisas que não perecem. "Eis a luz de Cristo", cantaremos na Vigília Pascal. É isso que buscamos pelo despojamento, até a plenitude almejada, na grandiosidade da visão do próprio Cristo glorioso.
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Fonte Dom Francisco Carlos Bach
